O Culto ao Falso Guru
por Rafael Dourado - 14/08/2007Só faltava um empurrão para uma briga e O Estadão o fez. Sua campanha inteligente sobre um assunto idiota gerou o merecido buzz e começa a mostrar que publicidade nada mais é do que é a síntese convincente de uma opinião egoista. Prova disso é esta pérola da “imparcialidade” jornalística: Capacidade de Discernir, editorial do Diário do Nordeste. Douglas Adams nunca esteve tão certo.
Já disse em outros artigos que o Brasil é o país do avesso. Nós levamos à sério coisas que deveríamos ignorar e brincamos com o que é de fato importante. Tanto que não passamos um dia sem fazer piada com política enquanto matamos uns aos outros no futebol. Essa capacidade de vermos tudo por trás (em ambos os sentidos) sempre permitiu que déssemos ouvidos a auto-proclamados geradores de opinião.
Não, não estou falando de blogueiros, mas de assíduos freqüentadores da mídia de massa. É comum ligarmos a TV e vermos uma tatuada falando de sexo para jovens curiosos com a autoridade de quem muito o fez, mas pouco leu; apresentadoras famosas por terem engravidado de artistas internacionais ministrando discussões entre atrizes pornô e completos desocupados sobre a pena de morte; ou colunistas de revistas com credibilidade inversamente proporcional à qualidade do conteúdo discorrendo sobre qualquer assunto que seja, do trivial ao sentido da vida passando por política, ciências, direito e tecnologia. Insistimos tanto em tirar leite de pedra que repórteres esportivos sempre fazem as mesmas perguntas e escutam as mesmas respostas de jogadores que são pagos para jogar e não para falar.
Então, eis que somos presenteados com a internet e muitas coisas começam a mudar. A informação perde o controle e quem se dizia conhecedor de determinado assunto agora é obrigado a ouvir outro alguém que, no mínimo, sabe mais sobre esse mesmo assunto. E nós consumidores/espectadores começamos a escutar várias vozes falando coisas contrárias àquelas que o soberano de outrora dizia. O livre arbítrio, que era mais bíblico que verídico, tem seu significado ampliado, pois temos a opção real de escutar o tradicional, o inovador, o neutro, o revolucionário, o gênio, o ignorante, o mentiroso, o palhaço, o bonito e o feio.
It’s very real. How do I know? Because I saw it on TV.
Inspetor William Armstrong do filme Zodiac
Mas quais dessas opiniões são válidas? Decisão sua! Questione a posição de cada um, inclusive a própria. Escute vários antes de escolher qual considerar. Era muito fácil ligar a TV e aceitar tudo o que era dito como verdade enquanto a saliva escorria pelo canto da boca, folhear uma revista usando o banheiro e ler o jornal de manhã quando o cérebro nem tão oxigenado assim estava. Não interessa se é um blogueiro, um jornalista ou um especialista quem escreveu a reportagem, o artigo, o bilhete ou o post. Seja lá o que for que você estiver lendo, ele representa o ponto de vista de alguém. Já o discernimento só cabe à você.
O mundo está mudando queiramos ou não. As gravadoras já mostraram total incompetência para encarar tais mudanças e agora os meios de comunicação fazem o mesmo. Não entendem que a comunicação não é mais vetorial ― se é que um dia foi ―, mas é o fértil ambiente de um constante diálogo cujas réplicas e tréplicas agora são ouvidas por muito mais gente. Inclusive pelos próprios veículos, que, pelo visto, não aceitam o fato de não serem mais vistos como gurus da verdade.
O exercício do discernimento é diário e digno de erros e acertos. Ignore o significado “jornalístico” do verbo, onde discernir é aceitar o que sempre lhe foi dito, e comece (se é que já não o fez) a questionar tudo o que lhe é dito. Pode começar por este artigo. O formulário de comentários está logo abaixo.

14/08/2007 • 10:25
Fala Dourado! Não tenho questionamentos a fazer. Simplesmente matou à pau! Ótimo post. Uma maneira
diferenteinteligente de “protestar” contra esse acontciemento! Não podemos negar que na blogosfera tem muita porcaria, e cabe a você, e somente a você, escolher o que vai ler e que informações vai absorver =)14/08/2007 • 10:28
Dourado, concordo completamente contigo. E aponto duas questões. Primeiro, ao conhecer a campanha do Estadão, imaginei - por um momento - que tudo seria uma estratégia de algo maior e revelador. Um teaser que aproveitaria uma ação de buzz para o bem.
Mas pelo jeito não é nada disto. Bestalhão-ão-ão.
A segunda questão é uma proposta aos amigos que tem a mesma curiosidade e um pouco mais de tempo: busquem saber quantos dos jornalistas e colunistas que fazem o “Bestalhão”, tem weblogs.
Boa pergunta?
14/08/2007 • 10:31
Essa é fácil: http://www.estadao.com.br/blogs/
14/08/2007 • 10:50
Esse questionamento eu fiz quando tinha 12 anos e vi um erro de pronúncia de uma palavra em inglês que eu acabara de aprender corretamente no colégio. Apesar da pouca idade, eu tinha o costume de assistir ao Jornal Nacional todas as noites com meu pai e aceitava tudo que vinha da TV como verdade absoluta. Foi um baque quando percebi o primeiro “erro” vindo da caixa preta (na época era marrom, cor de madeira) da verdade. Lembro desse fato porque desde alí, comecei a notar erros de todos os tipos, desde os de portugues até as notícias tendenciosas de acorodo com cada meio e suas relações com o poder.
Hoje o que há de mais patético na televisão foi o que o menino de ouro lembrou muito bem: programas que aproveitam que a maioria absoluta dos espectadores ainda não fez a descoberta que eu fiz aos 12 anos e elevam pretensas-celebridades à falsas-autoridades em qualquer assunto pra ficar falando merda em rede nacional como se toda aquela diarréia verbal tivesse algum crédito.
Já o medo do Estadão, é perfeitamente compreensível. Pena (pra eles) é não entenderem que claramente não podem vencer os blogs, - que vejo como evolução natural da comunicação - e não se junta à eles, iniciando uma batalha que vai dar em nada.
14/08/2007 • 11:25
Os comunicadores tradicionais, se estão realmente interessados em comunicar deveriam primeiro deixar de lado esse exibicionismo literário empolado e aprender com os blogs como ir direto ao ponto e falar para que as pessoas realmente entendam.
Ponto para o Rafael!
14/08/2007 • 11:33
A classificação de informações é realmente feita pelo ser humano desde a criação. Nós escolhemos a cada segundo oque pensar, ler, escrever, desejar, realizar e etc. Não fazendo referência ao livro O Segredo, antigamente essas escolhas eram feitas apenas de uma minoria de pessoas. Hoje é diferente, 1 bilhão de pessoas tem acesso a informações que antes não tinham. Irformações boas e ruins. Como trocar um canal de TV quando não gosta da programação, você pode fazer o mesmo na internet. A grande diferença é que na internet somos mais que espectadores, agora podemos colocar nosso potencial em prática. Descobrindo assim gênios, poetas, cientistas, jornalistas, escondidos atrás de uma tela em busca de informações e interatividade. Para tudo isso basta classificar. Um exemplo é: quem gosta do Silvío Santos e Faustão aos domingos? Ninguém merece a falta de cultura desses programas. Antes éramos obrigados a ver, hoje temos um mar infinito de outras programações.
14/08/2007 • 11:38
Eu só posso dizer: “Oh Mídia Burra”
15/08/2007 • 9:49
Bem, você foi direto ao ponto! A internet é um meio democrático de discussão e expressão de opiniões e interesses. Embora tenha tido muito medo de um processo de “assimilação” e “pasteurização” dela após a entrada do setor privado na web e sua tentativa de se mostrar como detentor único da informação, os Blobs e ferramentas afins mostraram-se eficientes meios de expressão e divulgação de assuntos mil, dando ao José da Esquina o mesmo espaço da Lílian Witfibe, para dar sua opinião. Não acho que nossos atuais meios de comunicação de massa - por sinal, o próprio termo já é pejorativo – possuam uma linguagem empolada e não comuniquem diretamente a informação. O problema não é esse de linguagem hermética, mas a comunicação de uma informação truncada, desprovida, muitas vezes, de real relevância, e que é repassada como se fosse “aquilo-que-você-devia-saber-pois-iria-mudar-sua-vida”. Exemplo disso foi a reportagem do fantástico sobre o Tempo, no último domingo, que me pareceu uma profusão de perguntas chavões e desprovida de respostas nem filosóficas nem científicas, enfim, a reportagem era vazia de informação.
15/08/2007 • 14:49
Em se tratando de impressos locais, tanto o DIÁRIO como o POVO não chegam a 50 mil exemplares/dia. Em uma população que na cidade já ultrapassa há mais de 2 milhões e meio de almas alencarinas, é um número muito baixo. E isso no geral. Se for contar apenas os assinantes, aí sim, deveras baixo. O mesmo se de dá com jornais impressos em outras capitais, revistas de circulação nacional como VEJA, ÉPOCA, etc… enfim, toda a mídia tradicional já é afetada. Todos sentiram o “baque” que a Internet está proporcionando. Não é estranha então tal reação. Virou guerra mesmo. Guerra por um modelo que não atende mais os seus leitores. É como tentar vender FAX. Alguns vão comprar, ainda… mas somente alguns hoje. E amanhã, nenhum.
16/08/2007 • 12:34
[…] Ultimamente, pelo mundo afora, estão levantando bandeiras contra internet. Contra a web 2.0. E contra os blogs. Eu nem ia falar de tão rídiculo que estou achando isso tudo, mas lendo o interessantíssimo texto do Dourado, que rebateu com classe, respeito e indagação aos meios, e a visão esclarecedora do Elvio, me deram corda. […]
16/08/2007 • 22:45
Ouvindo novamente algumas músicas dos anos 80, achei um trecho dessa do RPM que que tem tudo a ver com esse discussão. Basta trocar RÁDIO por BLOG
Preparar a nossa invasão
E fazer justiça com as próprias mãos
Dinamitar um paiol de bobagens
E navegar o mar da tranqüilidade
Toquem o meu coração,
Façam a revolução
Que está no ar, nas ondas do rádio
No submundo repousa o repúdio,
E deve despertar
16/08/2007 • 23:27
WW: O Fantástico adora fazer isso. Mas ele já foi pior. Tenho que admitir que as séries que eles fazem estão ficando muito bacanas. A do Geri-Geri lá sobre mercado de trabalho eu gosto.
Adriano: Nada como um saudosismo pra completar o papo, heim!
17/08/2007 • 2:37
Geri-Geri é bom. Max Gehringer, seu tosco, fórmula mais que aprovada pelo público da CBN. Ele tá há anos lá, a Globo só aproveitou.
17/08/2007 • 9:23
Sim, a Globo raramente inventa algo novo. Só não é pior que o SBT que realmente não inventa NADA. Mas isso não tira o mérito do quadro.
E não tem como chamar ele pelo nome certo depois que o Casseta e Planeta avacalhou.
17/08/2007 • 9:43
Tem uma onda de blogs sobre publicidade, em especial o bluebus, discutindo a campanha do Estadão. O que é legal nisso é que agora estão separando as responsabilidades… cliente e agência. Concordo que foi um erro histórico, mas é interessante sim medir a culpa de cada um.
17/08/2007 • 15:40
Meu único ponto de vista sobre esse assunto fatídico blogs x Estadão que o Dourado não tenha posto no post (gostei, “posto no post”): os blogueiros que acharam engraçadinho, legalzinho, que está havendo exagero na reação, sempre tentam explicar a campanha. Como já disse o guru da publicidade Saulo Carvalho, campanha que merece explicação não presta. E tenho dito.
“Posto no post”… é, bacana.
20/08/2007 • 16:03
[…] O segundo, mais filosófico, vem do Netlus. “O Culto ao Falso Guru“, do Rafael Dourado, não é apenas sobre o caso do Estadão mas de toda uma época marcada pela mudança no fluxo de informações, a grande culpa deste instrumento do diabo chamado internet. Não é só um bom texto sobre o assunto, mas o melhor do blog em seu tempo de vida, o rapaz estava inspirado. […]