Certeza? De quê?

por Rafael Dourado - 19/10/2007

Muita gente achou genial (eu, inclusive) essa história da venda do novo CD do Radiohead ser feita exclusivamente pela internet, principalmente o fato da versão para download ser vendida pelo valor que você quiser pagar (inclusive nada). Isso me lembrou uma “certeza” que muitos temos com relação a nós brasileiros: entre pagar e não pagar, melhor não pagar. Isso dá aquela sensação gostosa que muita gente parece adorar: “me dei bem”.

Mas será que isso é verdade mesmo? Será que brasileiro é realmente um povo malandro que tenta dar um jeitinho de se dar bem em cima de tudo e todos? Muito antes de qualquer In Rainbows surgir, o professor da CEFET/CE Mauro Oliveira resolveu tirar a prova com seus alunos. Mauro é uma espécie de Silvio Meira cearense, pois além de ministrar aulas, administra um núcleo da CEFET/CE no bairro Pirambu em Fortaleza aos moldes do C.E.S.A.R do Recife.

Bom, mais ou menos em 2002, Mauro resolveu fazer uma experiência com os alunos: uma placa de preço em uma geladeira de sorvetes no pátio da escola seria suficiente para garantir as vendas, ou os alunos pegariam os sorvetes sem pagar? Após a 1ª semana, cerca de 70% pagaram pelo produto. Sim, a grande maioria resolveu fazer o que parecia certo e deixou o dinheiro na caixa ao pegar o sorvete.

Na semana seguinte, aumentou para cerca de 85% o número de pagantes. O que mudou? Para descobrir, o professor resolveu passar nas salas parabenizando os alunos pela lição de civilidade e, ao informar os números, alguns começaram a apontar os não-pagantes. Os “espertos” passaram a ser execrados pelos justos e uma auto-fiscalização começava a ser percebida.

Mais uma semana de experiência e 100% dos sorvetes já estavam sendo devidamente pagos sem a necessidade de nenhum fiscal ou vendedor para garantir que assim fosse feito.

Está certo disso? Posso perguntar?

Por favor, não ache que estou dizendo que essa experiência daria certo em todo e qualquer contexto. Sei inclusive que o mesmo caso não funcionou no Colégio Antares, por exemplo. Mas de certa forma isso mexe com o que achamos que é certo.

Mas quantas outras certezas nós temos? Firefox é mesmo melhor que Internet Explorer? Sites em Flash são mais “legais” que HTML? É mais fácil usar os dedos que uma caneta stylus? O Google é clean ou feio? Spam não funciona? As pessoas não gostam de novidades? Se é grátis é porque não presta? As mídias tradicionais devem ser imparciais? Barras de rolagem são ruins? RSS é a melhor solução para leituras de notícias? Ler no monitor é pior que ler no papel? A web é democrática? AdBlock deveria ser proibido? A W3C está sempre certa?

Leio dezenas de sites e blogs todo dia, além dos que comentam, e todos têm opiniões e experiências próprias sobre esses e milhares de outros assuntos. Mas boa parte da nossa argumentação busca convencer (ou catequisar) outras pessoas a seguirem nossa opinião. Tudo na base do “achômetro”. Claro que discussões são saudáveis e necessárias, mas profissionalmente “achar” alguma coisa só nos leva a dar chutes no escuro.

O que me leva à pergunta: por que nós não pesquisamos sobre nada? Todo o nosso posicionamento quando não se baseia em poucos exemplos pessoais é baseado em pesquisas americanas ou poucos dados estatísticos do IBOPE (que, convenhamos, não tem essa credibilidade toda). Sempre que vejo um artigo sobre usabilidade a Nielsen/Netratings é citada, mas quem eles são para ditar regras mundiais? A web, por mais universal que seja, não é capaz de apagar traços culturais — que em se tratando de Brasil, são os mais diversos possíveis.

Muitos inclusive têm mania de dizer que tal coisa “o usuário” não vai entender. Quem é essa figura? Por que “o usuário” é tão limitado? O seu “usuário” é o mesmo que o meu “usuário”? Até mesmo tratando esse elemento como público-alvo não é garantido que irá acertar esse alvo que você “acha” ser o certo.

É para responder todas essas perguntas que a pesquisa científica existe. E quem souber de mais pesquisadores BRASILEIROS blogando, além do Frederick, por favor me informe. Preciso (sempre) rever meus conceitos.

6 comentários para “Certeza? De quê?”

  1. Muniz Says:

    Difícil comentar nesse post, não tenho certeza de nada do que falaria.
    Vou testar depois eu volto… :P

  2. Rafael Dourado Says:

    Isso que dá escrever post quando se está confuso. Influciencia os outros. hehehe

  3. Rafael Dourado Says:

    Boa dica que recebi via messenger: http://alexprimo.com/
    Tanto o blog quanto as publicações valem a pena.

  4. Wellington W. F. Sarmento Says:

    As certezas em um mundo fugaz como o nosso são difíceis, mas nosso desejo de criar um mundo melhor para nós e nossos descendentes nos impele a querer sempre modificar o mundo para um ideal tangível. Tecnologia não é religião, como foi dito por um professor em palestra na VII Semana de Informática da FA7. Esta afirmação nos faz refletir que discussões de quem é a melhor, o software proprietário ou o livre, Java ou C#, Windows ou Linux, devem ser colocadas no campo técnico, pesquisando suas vantagens e desvantagens reais, experimentando em cenários que possam nos ajudar a refletir onde e quando aplicar a tecnologia. No entanto, creio que a experiência do Prof. Mauro sirva como exemplo de uma pessoa que quer mostrar que ainda temos chance de mudar as coisas e que nada é necessariamente irreversível quando falamos de sociedade e pessoas. Este país é ótimo! Gosto do sol, das pessoas, das cervejas, das comidas, das ciências, gosto de viver nele e quero que meu filho possa ter uma terra bonita e acolhedora, quando eu não mais estiver mais aqui.

  5. wendel alves Says:

    Caro Rafael,

    poucas pessoas nesse Brasil tem o hábito de ler. Poucos alunos (de todos os níveis) lêem com frequência. Triste fato. Isso ocasiona um efeito cascata sem proporções, sabemos bem como esta história termina: o desinteresse é generalizado e uma triste realidade é constatada no meio acadêmico: a de que poucos numa sala de aula serão capazes de enfrentar o mercado de trabalho.

    Claro que tudo isso tem a ver com pesquisa. Como podemos exigir que em nosso país estejamos mais sintonizados com este universo se a grande massa prefere enaltecer os “BIG BROTHERS” do que figuras exemplares como Silvio Meira?

    Como bem ressaltou o professor Élcio: “Estamos distantes uns 20 ou trinta anos em termos de pesquisa com relação a outros países de primeiro mundo”, uma frase que incomoda e nos faz parar para pensar. É claro que existem excelentes pesquisadores em nosso Brasil, então o que falta para difundirmos a cultura da pesquisa?

  6. Chico Neto Says:

    Wendel,

    Se a gente não colocar tanto responsabilidade no BBB e nas novelas da Record (viva à diversidade) isto ajudaria bastante. Se ler é algo tão ba-ca-na assim, se engrandece de verdade o homem, programa de televisão nenhum - nem mesmo o Telecurso 2000 - poderia competir com a leitura.

    Então, qual é a fórmula mágica? Bem, fórmula mágina eu não conheço. Só espero, enquanto adulto, apresentar a leitura às crianças de uma forma mais fascinante do que fizeram comigo. Já é um jeito.

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