“Bom demais para o próprio mercado”
por Rafael Dourado - 12/09/2007Semana retrasada tive uma reunião com o diretor de uma agência web local. Ele era bastante sincero em tudo que dizia, mas respeitar sua postura não me impede de discordar de tudo o que disse.
Uma das frases que ouvi foi:
Nós estamos em Fortaleza. Não podemos fazer um trabalho com a mesma qualidade do que é feito em Rio e São Paulo porque não ganhamos o suficiente para isso.
Estou há uma semana tentando escrever um texto decente sobre o assunto, mas considero a frase tão absurda em tantos aspectos que está difícil elaborar as frases. Ela é segregadora, justifica o trabalho medíocre, desconsidera a criatividade, fere a vontade de crescer de profissionais de qualquer área, nivela profissionalismo pelo salário, ignora qualquer razão humana de motivação que não o dinheiro além de ser, no mínimo, deselegante falar isso para o cliente. Afinal, se havia ainda alguma esperança de melhora do trabalho, morreu ali.
Se um cliente o paga para realizar qualquer serviço que seja, o mínimo que você pode fazer é realizá-lo da melhor forma que conseguir. Ninguém é obrigado a fazer o que não quer. Mas se você se propõe a fazer algo pelo valor acordado, é melhor fazer direito. Afinal, existe um negócio chamado concorrência que sempre se deve considerar. Pode-se morrer de justificar a própria incompetência dessa forma, mas ― principalmente em se tratando de internet, considerada a mídia mais democrática atualmente ― há grandes chances de outro conseguir fazer o mesmo serviço com a esperada qualidade. E não precisa nem ser alguém do sudeste.
Criatividade
Sou obrigado a resgatar o real sentido da palavra criatividade. Não se é criativo por fazer coisas diferentes, mas por encontrar soluções para os mais variados problemas. Claro que se um problema ainda não foi resolvido, a solução é de fato original, mas a originalidade por si só não foi o estopim.
Logo, ser criativo em um mercado menos maduro é ter retorno mesmo sem receber $20.000 para isso; aumentar o número de clientes com ações de SEO; melhorar a imagem de uma marca simplesmente assumindo os próprios erros; encontrar soluções prontas e grátis para situações corriqueiras e fazer malabarismo com o que se tem disponível.
Minha preocupação maior é saber até que ponto a opinião do tal diretor é compartilhada por outros. E aí, caro leitor? Sua criatividade é proporcional a quanto você ganha?

12/09/2007 • 13:02
Esse tipo de postura não é nada profissional, nem postura de um ser humano, que deveria ter como objetivo crescer e evoluir. Pessoas assim infelizmente existem aos montes que procuram justificativas (a grande maioria infundadas) para os seus problemas, quando na realidade a solução desses problemas não está no externo, e sim dentro dessas pessoas, mas elas vivem numa escuridão que não as deixa enxergar as coisas a um palmo do nariz. É isso…
12/09/2007 • 14:40
Infelizmente acredito que isso seja um fator cultural muito presente neste região. Amplamente isso pode ser visto até na péssima qualidade do serviço de atendimento que temos. Seja por falta de motivação, falta de comprometimento, falta de postura profissional…
Felizmente já tive experiência em começar vários projetos, situação onde você tem muito para fazer e pouco dinheiro para ganhar. Utilizei toda a criatividade e comprometimento nos serviços, é assim que consegui aprender bastante e obter bons resultados.
12/09/2007 • 14:43
A frase deveria ter sido: Nós estamos em Fortaleza. Nós podemos fazer um trabalho com a mesma qualidade do que é feito em Rio, São Paulo ou qualquer outro lugar mas uma boa parte do empresariado local, eternos mãos-de-vaca, não querem pagar por isso, PRIMEIRO porque só enxergar custos quando deveriam ver investimento, SEGUNDO porque existem dezenas de raparigas à solta na cidade que se vendem por míseros 100 reais e TERCEIRO porque a imprensa continua abordando a Internet como sendo algo maravilhoso, irresistível, lindo mas repleto de coisas ótimas e gratuitas! Internet é investimento. Fazer o site com qualquer um, torna o seu site qualquer um também e apesar da Internet ter sim muita coisa ótima, contratar um profissional e seus serviços não pode ser visto da mesma forma.
12/09/2007 • 14:58
Danilo: Acho que tudo se resume a falta de postura de profissional mesmo. Aqui é muito forte a cultura de se dar bem em cima do outro, da malandragem. E isso se reflete em tudo: no trânsito, no tratamento com as pessoas, no trabalho e na vida. É triste.
Adriano: Concordo 100%. Mas você que está na luta há mais de 10 anos e tem uma empresa aqui mesmo, resolveu comprar a briga assim como eu. E como a gente melhora isso? Você mais do que muitos deve ter percebido e participado de mudanças. Eu que estou “entrando agora” tenho certeza que já peguei um cenário bem melhor que o seu há tempos atrás. Como é que se faz trabalhos criativos mesmo com o pouco investimento?
12/09/2007 • 15:21
Rafael, trabalho criativo remunerado com pouco investimento é algo muito, muito complicado… Criatividade é algo que vai representar um ganho a mais para o cliente. Sempre! No mercado atual, que todo mundo se parece com tudo mundo, trabalhar assim deveria ser obrigatório. E ele precisa entender isso, precisa ser catequisado, que é o que eu continuo tentando fazer, dia-a-dia, desde então. Não tem chôro, não tem vela. Tem que pagar! Ou paga ou nada feito! Criar qualquer coisa a partir de uma tela vazia é sempre algo que requer um bom investimento e investir nesse profissional é mais do que obrigatório para o empresário que tiver o mínimo de consciência e que quer entrar na Internet bem, entendendo que a mídia não dá mais margem para experimentações nem para “dar um jeitinho” com o primo-do-vizinho-do-meu-amigo que ele ouviu falar… Afinal, Quando ele quer morar bem, ele contrata um bom arquiteto. Se sente dores no coração, ele vai em um bom cardiologista. E todos devem ser bem remurados. O que não dá prá aceitar é o que cliente que quer ter um GOLF mas pagando o preço de um CELTA. Aí não tem criatividade que dê jeito.
12/09/2007 • 15:48
Só para completar, umas das coisas mais nojentas e irracionais que eu eu ainda me dou o desprazer de ouvir por aí é quando um possível cliente diz, no meio da reunião: “mas fulaninho de tal” disse que faz por apenas X reais, Adriano! Desculpa, mas… porque então você me chamou mesmo? Contrate-o então. Só não desejo boa sorte porque você vai precisar de muito mais disso para o seu site. Com licença! Infelizmente, fui aprendendo com o passar do tempo que não vai ser possível atender a todos , por existirem clientes e CLIENTES mas somente alguns tem razão. Não todos, como diz aquele ditado ridículo. É difícil? É. Sempre foi. Sempre será! Mas pior, muito pior, deve ser ceder a tentação e vender a sua alma ao capêta, porque uma vez vendida você será a mais nova prostituta on-line do mercado e seu trabalho valerá o que alguém disser que ele. Qualquer coisa. Aí não tem mais volta.
12/09/2007 • 16:07
Pra quem interessar, aqui e aqui problemas com clientes no mercado europeu. Engraçado ver como alguns coinscidem.
12/09/2007 • 21:04
Penso da seguinte forma. Nós temos um pequeno problema, querer comparar os preços pagos aqui aos de São Paulo e Rio. Vamos a aula de economia, rs. O PIB São Paulo e Rio corresponde a primeiro e segundo lugar do Brasil, já o Ceará está em 14º. São Paulo tem uma participação de 33,4% no PIB Nacional. A renda Per Capita de Sampa é R$10.547 (2º lugar) contra R$3.129 (24º lugar) do nosso querido estado.
É só ver a tamanha descrepância, isto é, a quantidade de grana que circula aqui é muito menor que lá. Então vejo que muitos colegas de profissão prendem suas mentes utopicamente nos valores de sampa e não se adaptam a realidade do mercado local e isso acaba virando justificativa para trabalhos mediocres.
Mas mesmo assim, ainda existem grandes grupos aqui em nosso estado que provaram bons resultados na web e que estão investindo mais a cada dia, como o Adriano Macêdo disse o cliente tem que entender o valor disso, mas pra isso ele deve ser educado a saber diferenciar o que é bom e o que é ruim, mas ele só aprenderá isso se cada um de nós profissionais da área fizermos nossa parte, fazendo trabalhos criativos e lucrativos para ambas as partes.
Pra mim queixo de jogador ruim é chuteira frouxa.
12/09/2007 • 21:13
Se não for para fazer o melhor que eu posso, eu simplesmente não aceito fazer. Se alguém está realmente disposto a colocar o seu NOME em algo mal feito, este alguém não sou eu.
Aqui em Fortaleza existem grandes empresas que conseguem ver o valor de um bom trabalho. E aqui, assim como em São Paulo ou lá no Crato, também existem várias (normalmente 5x mais) empresas que se propõem a fazer e fazem mal feito.
Na minha opinião cabe à empresa decidir com quem ela pretende concorrer.
13/09/2007 • 0:15
Isso ainda é real? mesmo com todo nosso esforço de concientizar esse povo, principalmente da área, que nosso valor não está em notas de cinquenta.
Uma tag é uma tag em qualquer lugar, claro que tenho que me adaptar as condições locais, mas isso não quer dizer que só porque Fortaleza é uma cidade turística eu tenha que me prostituir também.
Reforço o que foi muito bem dito acima, se eu aceito em fazer um tabalho por determinado valor, que seja da melhor maneira que posso, pois meu nome está envolvido nisso.
é o que eu penso….
14/09/2007 • 14:30
Eu estou tentando fazer um comentário a respeito desse post desde que o li. E mesmo assim não sei se o que vou falar abaixo é besteira ou não. Segue uma linha de racíocinio parecido com o do Adriano, mas acaba indo pra outro final.
Acho que você e o Geraldo, que aliás é outro grande amigo meu, estão certíssimos quanto ao lance de darmos o melhor. Entendi perfeitamente que o que você está avaliando, que é uma pessoa que está com um baixo estímulo porque não ganha o que acha que merece e que por causa disso faz, ou justifica, trabalhos medíocres. Entendi e concordo. Só queria falar do lance de comparar produtos.
Aqui começo a ir em outra direção do pensamento do Adriano, concordo com tudo o que ele falou, só completando. Acho que ouvir que talzinho cobra bem menos que você é igualmente chato de se ouvir quanto um “porque você não consegue fazer? eu vi um site da Produtora tal e eles fizeram”.
Com mais recursos, você pode ter na sua equipe: um bom fotógrafo, um bom redator, um bom arte-finalista, um bom programador, uma equipe de teste de usabilidade, um bom diretor de arte, um bom ilustrador…. enfim, o que acho errado é querer comparar uma equipe dessas com só uma pessoa que por mais que ela dê o melhor de si, será que ela será melhor que todo esse pessoal junto?
Eu acho que a questão dos poucos recursos implica muito ai. Quando você tem que ser todos esses profissionais e com qualidade igual ou superior.
15/09/2007 • 10:36
Tudo bem, tudo bem! É a tal da valorização profissional que tanto buscamos e o devido reconhecimento por parte dos clientes locais, concordo plenamente com o que está sendo exposto aqui, interessante notar que Fortaleza parece em muitos locais não saber que está num estado ocupando o 14º lugar em termos de PIB, principalmente porque muitos produtos possuem um valor de mercado quase que impraticável no nosso estado. Não nos esqueçamos de que aqui também existe uma alta concentração de renda.
O próprio empresariado local parece em muitas situações ignorar que seu produto está acessível para poucos e a grande maioria fica a ver navios. Fico perplexo, em muitas negociações, com a atitude de alguns empresários locais com suas posturas de nivelar por baixo um trabalho (Quer ele seja gráfico ou para web) em que o principal combustível que deva ser injetado nele seja a criatividade.
trabalhamos com o intagível, algo que não se vê num primeiro momento mas mediante um bom briefing resultará sempre num ótimo trabalho, agora para chegar a um nível qualitativo considerável , é preciso saber reconhecer (isso tem que sempre ficar claro na mente dos empresários) que investimento é primordial, daí toda a nossa via crucis e o nosso papel de catequisadores ao mostrarmos para nossos clientes o que eles terão de retorno ao investir a priori em algo que, na maioria das vezes, eles (empresários) não sabem nem o que querem. A valorização do nosso trabalho só acontecerá mediante o nosso esforço ético em oferecer soluções que ajudem nosso cliente a lucrar, só assim seremos valorizados.
Situações apontadas pelo Rafael ao mencionar um diretor de uma agência web local comentando que nossa realidade é diferente do sul, no mínimo, me leva a crer que o compremetimento em oferecer soluções criativas e funcionais para seus clientes (esse diretor da agência local) é totalmente furado.
Criatividade é obrigação no nosso trabalho. Não é um item negociável com o cliente, é obrigação. As soluções criativas é que são negociáveis para se adequar a realidade e porte financeiro de micro, médios e grandes.
15/09/2007 • 14:37
Ainda bem que o meu fraco texto foi complementado com seu ótimo comentário, Wendel.
17/09/2007 • 8:23
Ocupar o 14º lugar em termos de PIB parece não ter impedido da cidade possuir a segunda maior frota de carros importados do país (só atrás de Sâo Paulo), nem de serem comercializados apartamentos de singelos 60m2 custando R$ 120 mil reais, salões de beleza onde o corte custa R$ R$ 150 reais, restaurantes onde um jantar, para duas pessoas, ultrapassa os R$ 300 reais facilmente e diversos relógios de grifes suíças e alemãs vendidos por R$ 10 mil reais. Quando se soma desejo, necessidade e vontade, tal qual aquela antiga música dos Titãs, ocupar o 14º lugar em termos de PIB não importa, seja produto ou serviço. Nem nunca importará para uma parcela da cidade, alguns deles, os mesmos que irão depois lhe chamar para penchinchar no preço do site. O PIB não é nada para eles. Eles é que não conseguem colocar o site (ainda) como algo que some desejo, necessidade e vontade. Mas, se você os catequisar e eles colocarem o site como sendo isso também, parabéns. Você conquistou um excelente cliente! E fiel.