Só faltava um empurrão para uma briga e O Estadão o fez. Sua campanha inteligente sobre um assunto idiota gerou o merecido buzz e começa a mostrar que publicidade nada mais é do que é a síntese convincente de uma opinião egoista. Prova disso é esta pérola da “imparcialidade” jornalística: Capacidade de Discernir, editorial do Diário do Nordeste. Douglas Adams nunca esteve tão certo.
Já disse em outros artigos que o Brasil é o país do avesso. Nós levamos à sério coisas que deveríamos ignorar e brincamos com o que é de fato importante. Tanto que não passamos um dia sem fazer piada com política enquanto matamos uns aos outros no futebol. Essa capacidade de vermos tudo por trás (em ambos os sentidos) sempre permitiu que déssemos ouvidos a auto-proclamados geradores de opinião.
Não, não estou falando de blogueiros, mas de assíduos freqüentadores da mídia de massa. É comum ligarmos a TV e vermos uma tatuada falando de sexo para jovens curiosos com a autoridade de quem muito o fez, mas pouco leu; apresentadoras famosas por terem engravidado de artistas internacionais ministrando discussões entre atrizes pornô e completos desocupados sobre a pena de morte; ou colunistas de revistas com credibilidade inversamente proporcional à qualidade do conteúdo discorrendo sobre qualquer assunto que seja, do trivial ao sentido da vida passando por política, ciências, direito e tecnologia. Insistimos tanto em tirar leite de pedra que repórteres esportivos sempre fazem as mesmas perguntas e escutam as mesmas respostas de jogadores que são pagos para jogar e não para falar.
Então, eis que somos presenteados com a internet e muitas coisas começam a mudar. A informação perde o controle e quem se dizia conhecedor de determinado assunto agora é obrigado a ouvir outro alguém que, no mínimo, sabe mais sobre esse mesmo assunto. E nós consumidores/espectadores começamos a escutar várias vozes falando coisas contrárias àquelas que o soberano de outrora dizia. O livre arbítrio, que era mais bíblico que verídico, tem seu significado ampliado, pois temos a opção real de escutar o tradicional, o inovador, o neutro, o revolucionário, o gênio, o ignorante, o mentiroso, o palhaço, o bonito e o feio.
It’s very real. How do I know? Because I saw it on TV.
Inspetor William Armstrong do filme Zodiac
Mas quais dessas opiniões são válidas? Decisão sua! Questione a posição de cada um, inclusive a própria. Escute vários antes de escolher qual considerar. Era muito fácil ligar a TV e aceitar tudo o que era dito como verdade enquanto a saliva escorria pelo canto da boca, folhear uma revista usando o banheiro e ler o jornal de manhã quando o cérebro nem tão oxigenado assim estava. Não interessa se é um blogueiro, um jornalista ou um especialista quem escreveu a reportagem, o artigo, o bilhete ou o post. Seja lá o que for que você estiver lendo, ele representa o ponto de vista de alguém. Já o discernimento só cabe à você.
O mundo está mudando queiramos ou não. As gravadoras já mostraram total incompetência para encarar tais mudanças e agora os meios de comunicação fazem o mesmo. Não entendem que a comunicação não é mais vetorial ― se é que um dia foi ―, mas é o fértil ambiente de um constante diálogo cujas réplicas e tréplicas agora são ouvidas por muito mais gente. Inclusive pelos próprios veículos, que, pelo visto, não aceitam o fato de não serem mais vistos como gurus da verdade.
O exercício do discernimento é diário e digno de erros e acertos. Ignore o significado “jornalístico” do verbo, onde discernir é aceitar o que sempre lhe foi dito, e comece (se é que já não o fez) a questionar tudo o que lhe é dito. Pode começar por este artigo. O formulário de comentários está logo abaixo.